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Antonio Delfim Netto


 

Visão Alemã

Discursando esta semana na abertura do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suiça, a chanceler Ângela Merkel, fez uma defesa enfática do que chamou “o nosso projeto europeu de paz, integração e cooperação”, diante dos representantes dos 27 países que integram a União Europeia

Não podemos deixar – disse a chefe do governo federal da Alemanha – que os efeitos da crise financeira que nasceu nos Estados Unidos em 2008 ameacem de ruptura o sistema da moeda única e a sobrevivência da própria Zona do Euro. Ao lado do presidente francês Nicolas Sarkozy, seu maior aliado nos esforços para solucionar a crise, ela disse que “embora alguns progessos tenham sido feitos, infelizmente os países desenvolvidos não aprenderam lições suficientes desde a crise” para lidar com os problemas do sistema financeiro. E terminou com um apelo: “vamos ousar ser ainda mais europeus”...

Foi um bom discurso, dá sinais que a Alemanha melhorou a disposição de empenhar seus recursos para manter os parceiros vivos e evitar uma ruptura que, sem nenhuma dúvida, produziria enormes danos em sua economia exportadora e a consequente redução dos níveis de emprego. Embora pouco citado nas intervenções dos líderes políticos e financistas de todo o mundo que participam do evento em Davos, o problema do emprego nos Estados Unidos mas principalmente na Eurolândia assumiu cores ainda mais negras com a divulgação do relatório da Organização Internacional do Trabalho que mostrou um aumento de 37 milhões de pessoas nas estatísticas do desemprego mundial desde a eclosão da crise de 2008.

São números terríveis que explicam o crescimento dos protestos e a generalização do sentimento de revolta que levou às ruas milhares de “indignados” com as patifarias arquitetadas no sistema financeiro. Inicialmente nos Estados Unidos (como chamou a atenção “educadamente” a chanceler alemã) mas que posteriormente revelaram a extensão de suas conexões européias e asiáticas, sem esquecer até mesmo mercados na Oceania , os sul-americanos e no continente africano.

Entramos no quarto ano desde a identificação dessa crise que se recusa a terminar e infelizmente o poder político adquirido pelo sistema financeiro no mundo continua forte como nunca. Basta observar a couraça que o proteje nos Estados Unidos, onde bancos (grandes demais para quebrar) continuam a receber aportes bilionários da receita pública. E onde não se consegue terminar nenhum processo de cobrança das corrompidas “agências de classificação de risco” que, mesmo depois de desmoralizadas, continuam a protagonizar a farsa de rebaixar a nota de papéis soberanos dos países europeus cujas finanças elas ajudaram a fraudar.

Talvez seja este um dos motivos da referância contida na fala da ilustre chanceler alemã. As “agências” que hoje tentam prejudicar a colocação dos papéis europeus não sofreram nenhum tipo de sanção, embora se tenha demonstrado que as três mais importantes foram instrumento fundamental no financiamento do endividamento fraudulento do setor privado e dos governos, como o da Grécia, por exemplo. O mínimo que se poderia esperar, havendo empenho em fazer justiça, seria obrigar os agentes das patifarias a devolver um pouco do que roubaram aos incautos investidores que eles lesaram.

(*) - Professor Emérito da FEA/USP. Ex-Ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento (contatodelfimnetto@terra.com.br).

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