Despacho da agência Reuters exibido na internet dia 26 de fevereiro último informa que a Organização das Nações Unidas decidiu convidar “cientistas independentes” para auditar os dados constantes de estudos e pesquisas acolhidos no Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática – IPCC, desde 2007.
São trabalhos realizados em diferentes regiões e ambientes em nosso planeta e em sua maioria tentam contribuir para avaliar os impactos do aquecimento global sobre o clima. O anúncio foi feito em Bali (Indonésia), pelo Sr. Nick Nuttal, portavoz do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, esclarecendo que a revisão se tornou necessária em meio à crise de credibilidade motivada pelo grande número de erros descobertos em relatórios de pesquisas e em artigos de cunho “científico” publicados em revistas especializadas. Aparentemente tais inconsistências receberam endosso do Painel. O Sr. Nuttal aduziu que os auditores serão personalidades de alto calibre do mundo das ciências e deverão ter autonomia em relação ao IPCC, segundo o desejo dos estados-membros.
Algumas das questões que contribuíram para a atual crise de credibilidade já haviam chamado a atenção dos estudiosos dos problemas climáticos. Uma delas foi o endosso à “previsão” do derretimento das geleiras do Himalaia, baseada num número ínfimo de verificações, menos de 1% do total (800) das geleiras que envolvem aquele maciço rochoso na divisa dos territórios indiano e chinês. Não se pode simplesmente negar a possibilidade; a questão é admitir a seriedade de uma conclusão extraída de uma amostragem absolutamente insignificante.
Outro exemplo envolve uma situação que diz respeito ao nosso território, com o respaldo a um relatório delirante sobre “a sensibilidade do bioma amazônico às secas”. A análise do “mérito” do estudo ficou prejudicada a partir do momento em que se descobriu que se tratava de uma simples colagem de dados, cuja origem foi facilmente desclassificada.
Um problema sério que põe em risco a credibilidade do organismo internacional é exatamente o descuido com as origens de artigos que ganham espaços importantes na mídia (impressa e eletrônica) muitas vezes respaldados por políticos que precisam “fazer média” com um número crescente de pessoas que se preocupam com as questões ambientais. Muito justamente devido aos efeitos que hoje são medidos principalmente nos grandes centros devido à qualidade do ar que somos obrigados a respirar.
Ao anunciar a revisão dos relatórios e a auditoria nos dados de pesquisas, a ONU defende as publicações do IPCC, garantindo que a maioria dos estudos tem base sólida. Mas reconhece que os erros já detectados foram o combustível que turbinou a crise de credibilidade que atingiu o organismo. A verdade é que colaboram para o Painel pesquisadores da maior competência, que merecem o reconhecimento da sociedade pela colaboração de alto nível que oferecem. Paralelamente, contudo, são aceitas “colaborações” que na verdade escondem objetivos não nomeados, apoiados em ONGs financiadas por grupos de interesses comerciais e até mesmo governos, com a “mão-de-gato”...
(*) - Professor Emérito da FEA/USP. Ex-Ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento (contatodelfimnetto@terra.com.br). |