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Antonio Delfim Netto


 

Sucesso e castigo

Na virada do século 20 para o 21, o Brasil já despontava como potência agrícola, mas ainda ocupava um modesto sexto lugar como exportador de produtos agropecuários.

Em apenas oito anos a produção nacional deu um salto, crescendo em volume e em ganhos de produtividade, atendeu plenamente a demanda interna e ainda galgou três postos no ranking das exportações ultrapassando Austrália, China e Canadá.

De acordo com os dados da OMS divulgados semana passada, o Brasil tornou-se ao final de 2008 o terceiro maior exportador mundial de produtos agropecuários, atrás apenas da União Européia e dos Estados Unidos. Na classificação produto por produto o Brasil é o primeiro nas exportações de álcool, café, suco de laranja, carne bovina, carne de frango, açúcar e fumo. Ocupa a segunda posição em soja e milho e já é o quarto exportador de carne suína.

Vários fatores explicam esse avanço extraordinário da economia agropecuária brasileira. É questão de justiça reconhecer em primeiro lugar o papel fundamental da EMBRAPA desde sua criação há trinta e poucos anos. Foi a partir das pesquisas e dos experimentos conduzidos pelo seu corpo técnico que se produziu o espetacular aumento de produtividade na agropecuária nacional. Uma verdadeira revolução silenciosa, diria, quase imperceptível pelo restante da sociedade (urbana particularmente). É óbvio que ela foi apropriada por uma multidão sem rosto de pioneiros, empresários e trabalhadores que souberam abrir as novas fronteiras e pôr em prática as inovações que permitiram o crescimento da produção.

Esses brasileiros prosperaram, fizeram o Brasil crescer, venceram crises, abriram espaços no extremo oeste onde receberam suporte dos poderes estaduais, como em Mato Grosso por exemplo. Em dois mandatos, com recursos locais, a malha rodoviária triplicou, passando de 2 mil para 6 mil quilômetros de estradas asfaltadas. Sem abandonar a pecuária, o estado tornou-se o terceiro maior produtor de grãos do país e hoje é referência mundial em índices de produtividade no cultivo da soja. Para se ter uma idéia, o sojicultor americano obteve na última safra 54 sacas por hectare, em média; a média da atual safra até agora em final de colheita em Mato Grosso é de 62 sacas por hectare e não tem sido raro encontrar propriedades com produtividade média de 66 sacas/HA.

Da mesma forma que em muitas outras regiões do Brasil em rápido crescimento, os eficientes produtores de Mato Grosso enfrentam sérios problemas para o escoamento das safras, a começar pelo mau estado de conservação das rodovias federais. É o mesmo problema de logística dos transportes nas prósperas regiões pioneiras do oeste baiano, no entorno do município de Luiz Eduardo Magalhães e no chamado Mapito - o novo pólo de atração do agronegócio na confluência dos estados do Maranhão, Piauí e Tocantins.

Quando se mede a produtividade da porteira para dentro das propriedades o que se verifica é que o agricultor brasileiro é tão ou mais eficiente quanto o europeu ou americano. A renda que ele tira da produção, no entanto, é metade ou até mesmo um terço do que recebem os seus competidores. Os custos do transporte da atual safra de soja de um produtor da região leste de Mato Grosso até o porto de Santos correspondem a 50% do valor da produção: ele negocia a tonelada do grão por 450 reais e gasta 220 reais com o frete até o destino.

O custo do frete no Brasil é uma extravagância. Resultado da ineficiência dos governos que não cuidaram da conservação da malha rodoviária, negligenciaram a opção das ferrovias e hidrovias e ignoraram a necessidade de acesso às novas fronteiras de produção.

(*) - Professor Emérito da FEA/USP. Ex-Ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento (contatodelfimnetto@terra.com.br).

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