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Desde sua fundação São Paulo foi lugar humilde que antes vivia da venda de marmelada e hoje sobrevive nos sonhos da periferia
Uma carta escrita pelo padre Anchieta a seus superiores da Companhia de Jesus, em 1554, explica como era o colégio dos jesuítas na fundação da cidade em 1554. “Celebramos nossa primeira missa em um lugar paupérrimo, com paredes de barro socado e coberto de palha... e a ele demos o nome de São Paulo, por ser a data da conversão deste santo...”
Anchieta também revela, em outros relatos, que havia dificuldade para se convencer os índios a levar uma vida cristã e que em alguns momentos a vontade era de desistir, mas o padre persistiu, deixou a vila que ajudou a fundar, viajou a outras partes das novas terras dando continuidade à sua missão, enquanto que Piratininga onde havia o colégio de São Paulo, continuou sendo um lugar extremamente pobre onde sua gente vivia da extração de marmelo para a fabricação de doces, além do que era obtido com a caça e a pesca.
Moças casadoiras trazidas de Portugal para se unir aos homens bons, ou seja, filhos da coroa lusitana que aqui chegavam para desbravar os sertões nas entradas e bandeiras, aqui pariam suas crianças e depois ficavam aguardando seus maridos que chegavam a ficar até dois anos sem retornar. Estes por sua vez levavam consigo as chaves dos cintos de castidade.
Com seus filhos crescendo o trabalho mais pesado do plantio, da colheita e da caça, ficava para os mamelucos nascidos dos amores proibidos dos colonizadores com as índias. Nessa vila longínqua, cravada além do topo da Serra do Mar, quase só se falava o dialeto tupi, pronúncia que se manteve até além da metade do século XIX. Daí o sotaque ainda caipira, especialmente no interior paulista, porque os indígenas ao falar o português não conseguiam formar frases com lh e então diziam “cuié”, “muié” e assim por diante.

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Com a chegada do trem, a exportação de café iniciada no período imperial e ainda as imigrações, especialmente de italianos, São Paulo ganhou outros sotaques passando a pronunciar, já no início do século 20, mais os dialetos veneto ou o napolitano do que a língua portuguesa. Bairros como o Brás, Bexiga ou Mooca ganharam linguagem própria dando à cidade a cara italiana, fazendo da capital um lugar diferente no modo de ser e de falar se comparado a Santos, Campinas ou Ribeirão Preto.
Só então com a ajuda do bonde e das indústrias São Paulo se desenvolveu e prosperou chegando a essa metrópole às vezes irrespirável, mas também atraente. O nome Piratininga (peixe seco) definitivamente foi esquecido tamanha a quantidade de córregos e rios canalizados ou poluídos e São Paulo hoje é lugar de primeiro mundo na Rua Oscar Freire, na Daslú e em Interlagos quando chega a F-1 e vira classe média na Vila Mariana ou nas Perdizes e vai se tornando mais pobre mais a bairro até se tornar paupérrima, como nos tempos de Anchieta, no Jardim Pantanal ou no Jardim Romano e no restante da periferia.
Se hoje os frutos das primeiras sementes lançadas por Anchieta ainda são colhidos por ter São Paulo as melhores escolas, hospitais e empresas de todo o Brasil; novas sementes continuam sendo lançadas nos sonhos justamente destes que vivem na periferia e se apertam nas conduções sempre lotadas em busca de dias melhores.
Seriam eles os novos bandeirantes? Onde irá parar esse gigante! Só mesmo Anchieta para dizer.
Fontes: Cartas de Anchieta – Reedição/ 2004 - História de São Paulo Colonial, Maria Beatriz Nizza da Silva Ed.Unesp/2011 - Época Colonial Brasileira, de Sérgio Buarque de Holanda, Ed. Bertrand Brasil, Reedição/2006 - A economia colonial brasileira (séculos XVI-XIX - Sheila de Castro Faria 4a. ed., São Paulo: Atual Editora, 2007 – entre outros.
(*) É escritor e jornalista, integra a Academia Paulista de História
(geraldo.nunes1@gmail.com). |