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Gillus Boccattus


 

A fixação do Agnaldo

Ilustração: Kikus Gozus

Pelo que se costuma ouvir falar por aí, existem diversos tipos de fetiche

Alguns são vidrados em pés femininos, outros em peças íntimas, outros em sapatos, outros colecionam tufos de cabelos, enfim cada um com seus segredos esquisitos.

Já no caso do Agnaldo não é bem um fetiche, parece mais um tipo de fixação grotesca. O fato é que ele é vidrado no senador Heráclito Fortes. Tem, talvez, a maior coleção do mundo de fotos, reportagens e discursos, do senador.

E talvez seja o único, porque, quem mais nessa vida teria vontade de se dedicar a uma coleção dessas?

Também não podemos dizer que se trata de manifestação homossexual por parte do Agnaldo, menos pelo fato dele ser casado com a Ludmila do que talvez pela, digamos, ausência de sex appeal na figura do Heráclito.

Mas a verdade é que Agnaldo tem um armário repleto de referências ao senador, meticulosamente organizadas por ordem cronológica.

Mas, o pior, o que mais incomoda à esposa é um porta-retratos sobre a mesinha de cabeceira do Agnaldo, com a foto do Heráclito de sungas, jogando peteca na beira da praia de Ipanema. Pior: essa foto está lá há seis anos e não há cristão que consiga convencê-lo a tirá-la dali. Para Ludmila é sempre um verdadeiro banho de água gelada na libido. Tanto que ela prefere fazer amor no sofá da sala, mas, nem sempre Agnaldo topa. Fato é que, naquela cama, há seis anos Ludmila não consegue chegar ao orgasmo. Diferentemente do tal sofá, que é tiro e queda.

No mês passado, desesperada com a situação, Ludmila resolveu desabafar com a Terezinha, sua colega de repartição.

Depois de analisarem a situação, Terezinha sugeriu convencer o marido a fazer regressão espiritual. A explicação poderia estar em vidas pregressas.
Como Agnaldo não topasse de jeito nenhum, Ludmila convidou Turíbio, “O Mestre da Regressão” para jantar em sua casa, disfarçado de marido da Terezinha.

Depois do café, o Mestre pegou Agnaldo desprevenido, hipnotizou-o e deu início à regressão. Quando já estavam quase desistindo, eis que no ano de 1738 estava o xis da questão. Ali, uma paixão proibida e alucinante, acabou em tragédia para os dois, sendo Heráclito naquela encarnação a filha mais velha do Imperador e Agnaldo um jovem e afoito soldado. Para evitar constrangimentos, não vamos ficar aqui entrando em detalhes, ainda mais depois de tantos anos.
Agnaldo acordou do transe pensando que tirara uma soneca e jamais soube o que havia acontecido naquela sala.

Diante da situação, Ludmila resolveu agir: escondeu o porta-retratos inibidor de orgasmos. Quando o marido voltou do trabalho e deu por falta, ela argumentou que alguém entrara na casa e roubara o mimo, certamente algum fã chiita do senador.

Agnaldo não desconfiou de nada, mas, a partir daquele dia, entrou em depressão e, entre outros efeitos colaterais, não teve mais ereções.

Ou seja, Ludmila cobriu um santo e despiu o outro. A situação, na verdade, piorou, porque se antes havia a solução do sofá, agora não tinha nenhuma.
Resultado: inventando que alguém arrependido devolvera pelo correio o porta-retratos, Ludmila recolocou-o sobre a mesinha de cabeceira.

Ao se deparar com a foto novamente no lugar, Agnaldo, qual priáprico indomável, trancou-se com Ludmila no quarto e não lhe deu um minuto de folga.

Ela, coitada, não vê a hora de escapulir para o sofá.

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