“Memórias Póstumas de Brás Cubas” observa a condição humana

Publicado em 1880, livro desafiou todos os sistemas explicativos da época, incluindo religião e ciência.

Arte Jornal da USP sobre foto Wikimedia Commons.

Leila Kiyomura/Jornal da USP

Ler Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, não é apenas uma mera exigência do vestibular da Fuvest. É adentrar um universo que vai além da academia, uma oportunidade de conhecer um dos livros mais importantes da literatura universal e observar o homem com suas dúvidas, certezas, paixões, medos. Dialogar com Machado de Assis pode não ser tarefa fácil para os jovens que almejam uma vaga na universidade pública. Mas há a possibilidade de conversar com um autor que estimula a inteligência do leitor.

Para orientar sobre a importância da leitura de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o Jornal da USP entrevistou o professor Hélio de Seixas Guimarães, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, especialista em estudos machadianos. “É importante que os alunos que postulam um lugar na Universidade tenham a oportunidade de conhecer um livro tão desafiador e fascinante como esse, sem dúvida um dos livros escritos no século 19 mais ousados de todos os tempos”, assinala.

Ilustração de Memórias Póstumas de Brás Cubas, edição da Gráfica e Editora Edigraf, lançada em 1962.O romance foi publicado pela primeira vez em 1880. A narração é em primeira pessoa. O narrador, Brás Cubas, é um defunto que vai contando as suas lembranças. Ao abrir o livro, o leitor já é surpreendido com a dedicatória:

"Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas". Na página seguinte, o autor defunto chama o leitor para uma conversa ao pé do ouvido e avisa: “A obra em si mesma é tudo; se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar, pago-te com um piparote, e adeus. Brás Cubas”.

Diante de tanta irreverência e do convite desafiador, como não prosseguir com a leitura? O narrador defunto tinha razão. “Há mais de 130 anos, Memórias Póstumas de Brás Cubas é lido por leitores de todo o mundo”, observa o professor Guimarães. Um convite que o pesquisador estende aos vestibulandos: “Penso que o aluno pode aproveitar muito, tanto a leitura do livro como o que se pensou e se escreveu sobre ele durante todo esse tempo. Por tratar de todas as grandes questões da humanidade, desde as mais comezinhas até as mais amplas, ele permite avaliar o nível de entendimento e crítica dos seus leitores”.

“Esse é o romance que pôs a literatura e a cultura brasileira em outro patamar, na medida em que questionou todos os programas, crenças, ilusões e preconceitos”.

Professor Hélio de Seixas Guimarães: livro desafiador e fascinante.Guimarães esclarece que Memórias Póstumas de Brás Cubas impulsionou a literatura e a cultura a outro patamar. “Nesse romance, o autor questionou todos os programas, crenças, ilusões e preconceitos que até então pautavam a produção cultural e a vida não só no Brasil, mas no mundo. É um livro que desafiou todos os sistemas explicativos disponíveis então e, em grande medida, até hoje, incluindo a religião e a ciência. A medida da importância está no fato de que a independência literária e intelectual que Machado demonstra na composição desse livro continua a nos assombrar e intrigar.”

Brás Cubas narra as suas memórias. O primeiro capítulo versa sobre o óbito do autor. O morto escreve: “Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns 64 anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de 300 contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos”. Os detalhes curiosos que mesclam humor e sadismo em cada parágrafo surpreendem. Não é um livro para ser lido uma única vez e, muito menos, às pressas. Os resumos sobre o livro para facilitar o estudo fogem ao universo machadiano.

Até que ponto o escritor, sob a irreverência de Brás Cubas, apostou um piparote na boa leitura de suas memórias? “Não sei se Machado acreditava no bom nível do leitor; acho que em muitos momentos ele teve dúvidas e foi muito crítico dos hábitos de leitura e dos gostos literários predominantes no seu tempo”, responde o professor Guimarães. “Mas seus livros certamente são muito provocativos e exigentes com o leitor, que dificilmente fica indiferente a eles ou passa incólume pela experiência da leitura. São livros que não dão sossego para o leitor, que é a todo o tempo desafiado a tomar posição e tirar suas próprias conclusões sobre aquilo que está lendo”.

“Penso que a leitura de um romance exige mesmo algum silêncio e capacidade de concentração, que precisamos buscar em meio à profusão de estímulos a que estamos submetidos hoje”.

Ilustração de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Gráfica e Editora Edigraf, 1962.“Lendo… E relendo.” Esta é a orientação do professor para todos que quiserem conhecer Machado de Assis. Porém, no mundo contemporâneo, entre os ruídos e a avidez da sociedade informatizada, como ser o “fino leitor” definido pelo escritor, mesmo diante da leitura nas telas dos computadores e celulares? Hélio de Seixas Guimarães, autor de diversos livros, artigos e do recente Machado de Assis, o Escritor que nos Lê, lançado pela Editora Unesp, lembra a trajetória das sucessivas gerações de leitores que encontram sempre novos aspectos a serem discutidos e pesquisados.

Com Memórias Póstumas de Brás Cubas fica o desafio dos vestibulandos de desenvolver, mesmo nas telas dos computadores, o silêncio e a capacidade de concentração que a sua leitura exige. “É algo que precisa ser treinado e aprendido, que exige certa disciplina, mas que a meu ver traz muitas recompensas, pois nos conecta com um certo tipo de inteligência e sensibilidade que só se encontram na grande arte”, afirma o professor.