O escritor portenho Jorge Luis Borges continua dando o que falar

Borges, o legendário escritor argentino, talvez o último autor planetário da literatura, teve no segundo semestre do ano que passou uma elegante e fina homenagem organizada por Jorge Schwartz, conhecido professor da língua hispânica da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, com coordenação editorial de Maria Carolina de Araujo

Revista Gente/Editorial Atlantida

Borges com estudantes da Universidade de Michigan, EUA, em 1976.

Francisco Costa/Jornal da USP

Trata-se de Borges babilônico, um catatau enciclopédico de 570 páginas – trabalho editado pela Companhia das Letras, que contou com um time verdadeiramente de escol para a confecção de todos os verbetes do inspirado volume.

Na apresentação, Jorge Schwartz nos chama a atenção para um fato central: “Poderia começar esta breve introdução, fazendo considerações acerca do excesso que significa mais um dicionário sobre Borges; poderia também refletir sobre o papel da biblioteca ou da enciclopédia em sua vida e literatura”. O fato é que esta empreitada brasileira dará muito o que falar.

É mais que sabida a predileção de Borges (um perfeito homem de letras) por algumas de suas obsessões, além das duas já mencionadas acima por Schwartz: o espelho, o labirinto, a rosa, as apropriações indevidas de trechos de textos de outros escritores, o simulacro, a prestidigitação, os animais imaginários ou não, e muitos outros.

Verdadeiramente prolífico e portenho (nasceu em Buenos Aires, a 24 de agosto de 1899, e morreu em Genebra, a 14 de junho de 1986), sua vida sinaliza um amor perfeito ao trabalho com a literatura, seja escrevendo seus livros de prosa e poesia, seja em seus ensaios, em suas traduções e coescrituras (a de Adolfo Bioy Casares é a mais profícua).

Pois bem, tenho uma pequena história para contar sobre Borges: ocorreu na última vez em que ele esteve no Brasil, em São Paulo, para uma estadia de apenas dois dias. Ele chegou a 7 de dezembro de 1984. Já naquela época éramos “fissurados” (do curso de Letras da USP, pelo menos) pela sua obra e quase chegávamos à veneração. Assim, por volta de 22h40, o grande homem chegou a Congonhas. De cadeira de rodas, que era empurrada por Augusto Massi, lá estava ele e sua então secretária, Maria Kodama.

Borges com os objetos pessoais que ele mais gostava: a bengala, o relógio e o globo com o mapa-múndi.A primeira impressão que tive de Borges não foi lá essas coisas. Mesmo sentado, ele não tinha controle nenhum sobre seu maxilar, o que o deixava de boca aberta, olhando de um lado para o outro por olhos que já não viam mais nada, pois ele estava cego há vários anos. Lembro ainda que, como a visita era patrocinada pela Folha de S. Paulo, Borges teve enorme dificuldade para entrar no veículo que o levaria ao hotel. O que nos trouxe certa indignação, pois o carro mandado pelo jornal poderia ser um pouco mais alto.

Assistimos às duas conferências que ele deu em São Paulo: uma na Folha e a segunda, no Masp. A do jornal revelou que Borges era muito mais famoso no Brasil do que o periódico tinha noção, uma vez que um palco teve que ser montado no galpão do diário, pois havia uma tremenda multidão para vê-lo.

No Masp, lotado tanto quanto na Folha, o portenho teve maior conforto e sua fala foi traduzida pelo mesmo Jorge Schwartz, que tanto fez por Borges até aqui e lá o portenho mostrou maior loquacidade.

E finalmente o vi no mesmo aeroporto de Congonhas, quando ele se foi. Notei uma imensa diferença entre sua chegada e sua despedida. Eu o vi atravessando todo o saguão do aeroporto andando, com Maria Kodama ao lado. Numa das entrevistas que Borges deu na ocasião, ele disse que se sentia muitíssimo bem ao estar com pessoas jovens, pois de certa forma as vampirizava. Poderia dizer que ele deve ter tido uma estadia feliz nesse quesito, pois os públicos que o ouviram consistiam de grande número de jovens.

Tornando ao Borges babilônico, a empreitada de Jorge Schwartz e Maria Carolina de Araujo e os 60 colaboradores (entre eles Beatriz Sarlo e Ricardo Piglia) nada deixa a desejar: lá estão, entre os mais de mil verbetes, vários deles dedicados à literatura argentina, como Martin Fierro ou Leopoldo Lugones. Lá estão as 1001 noites e Xerazade e Harum al-Rashid, os espelhos, os seres imaginário. Ou seja, todo o material, usurpado ou não, que lhe deu histórias as mais diversas e eloquentes (penso no Pierre Menard).

Jorge temproarioDe toda forma, me incomodou um pouco – ou pode ser que me engano – pois li o livro da forma borgeana adequada, ou seja, fazendo uma leitura inicial a voo de pássaro, como se diz, e depois sequencialmente. Julgo que falta no belo livro um verbete sobre Paracelso (afinal, ele escreveu um dos mais belos contos de sua vida, A rosa de Paracelso, e outro sobre Os tigres azuis, publicados originalmente em A memória de Shakespeare (devo essa informação a Jurandir Renovato, com quem trabalho lá se vão 27 anos). O primeiro mencionado, sobre Paracelso, eu o traduzi em um momento de diletantismo, mas ambos os contos, se não me falha a memória, compõem também um outro volume, com trabalhos dele para a coleção La biblioteca de Babel, da editora espanhola Siruela, primeiramente publicada em italiano.

Senti certa falta também de algum verbete sobre o budismo ou Sidarta Gautama (em O livro dos seres imaginários, Buda se encontra numa praia com um desses seres, Kapila) e, ainda, Buda, escrito a quatro mãos com Alícia Jurado. É intrigante, pois há inúmeros verbetes sobre o judaísmo e o rabinato, além de longas observações sobre os muçulmanos, além do fato de contemplar o confucionismo e o taoísmo, entre suas referências prediletas.

Acho falta ainda de um verbete sobre os “prólogos”, tão caros a Borges, a ponto de ele publicar um livro intitulado Prólogos, com um prólogo dos prólogos.

escritor 3 temproarioEm suma, Borges babilônico é quase tão bom de ler quanto a própria obra de Borges, o que nem de longe é pouco. Um volume com a magnitude do atual, só merece aplausos. E por fim, deixo aqui o dado de uma das centenas de entrevistas de Borges: o repórter lhe pergunta sobre suas aulas de literatura na Universidade de Buenos Aires: o sr. reprovou algum aluno seu? Ao que Borges lhe responde mais ou menos o seguinte: “Não reprovei nenhum, mesmo porque a literatura só pode aprovar”.

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