Psicanálise também tem lugar para pessoas em vulnerabilidade social

A forma como a exclusão e a violência afetam sujeitos vem sendo estudada a partir do ponto de vista da psicanálise. Pessoas à margem da sociedade podem ter as suas experiências ouvidas levando-se em conta seus contextos e suas especificidades por meio da prática psicanalítica caracterizada como clínico-política

Danilo Ramos/ RBA

Membros do Laboratório do IP realizam a prática psicanalítica clínico-política
junto a pessoas que estão sob impactos de sofrimento sócio-político. Na foto, haitianos na Casa do Migrante.

Larissa Fernandes/Jornal da USP

Adolescentes em conflito com a lei, população em situação de rua, imigrantes e refugiados são alguns dos grupos acompanhados pelo Laboratório Psicanálise e Sociedade do Instituto de Psicologia (IP) da USP. Para além da escuta, é importante relembrar os sujeitos que têm seus direitos violados sobre os sonhos e desejos que carregam, explica a professora Miriam Debieux Rosa, coordenadora do Laboratório. Entre os trabalhos realizados, o grupo Veredas – Psicanálise e Imigração tem como foco auxiliar no processo de superação de refugiados.

Alguns desses imigrantes possuíam uma postura combativa até serem atingidos pela violência. Longe de familiares e de sua cultura, passam a adotar uma atitude mais conformista, conta a psicanalista. As marcas do trauma os impedem de relatar os acontecimentos vividos, reportando os fatos de forma genérica. Algumas histórias são marcadas por abusos e assassinatos cometidos por questões políticas.

Debieux aponta o relato de Ivo (nome fictício) que, junto com o irmão, encontrou a sua casa incendiada por rebeldes no Congo. Nela, estavam seus pais e outros familiares. Refugiado no Brasil, seu maior sofrimento é não saber o paradeiro do irmão – ambos se distanciaram em meio à fuga. Nesses casos, em um primeiro momento, a clínica psicanalítica busca contribuir para que o indivíduo esqueça a narrativa genérica, para que assim, possa falar de si.

01 12 01 18 temproario"Muitas coisas se transformam na vida desse sujeito, ele praticamente tem de se reinventar. Isso não se faz sozinho, se faz na relação com o outro”, afirma Debieux. O próximo passo, então, é ajudá-los a retomarem a posição de sujeitos de desejos, com uma trajetória de luta.

O método distingue-se da psicoterapia – em que se pressupõe um longo período de atendimentos. Pelo contrário, os profissionais se colocam a disposição para ouvir os sujeitos, sem que necessariamente seja estabelecida uma relação contínua. Algumas conversas e reflexões permitem que eles se reorganizem frente às suas angústias, para que possam aproveitar as oportunidades no novo País.

A psicanálise não está sozinha nesse processo, a professora explica que é necessário a união entre diferentes entidades, como as que lutam pelos direitos humanos, por moradia e trabalho. "Ele [refugiado] não consegue se sentir merecedor de cuidado em relação às suas dores psíquicas”. Devido à dificuldade justificada em estabelecer relações de confiança, a aproximação com essas pessoas é feita através de parcerias com organizações como a Casa do Migrante, abrigo para imigrantes localizado na cidade de São Paulo.

No caso dos adolescentes, as equipes – formadas por mestrandos, doutorandos, pós-doutorando e professores – recorrem aos equipamentos que prestam assistência, tal como os serviços socioeducativos. O trabalho realizado por Debieux ao longo de 15 anos está registrado no livro 'A Clínica Psicanalítica em Face da Dimensão Sociopolítica do Sofrimento', primeiro lugar na categoria Psicologia, Psicanálise e Comportamento do 59º Prêmio Jabuti. A professora reuniu e editou artigos feitos durante a sua experiência profissional, nos quais aponta como a psicanálise pode criar meios de intervenção para os casos de pessoas que não se enquadram em um discurso hegemônico.

A atuação junto a filhos de refugiados está entre os projetos futuros do grupo Veredas. Segundo Debieux, algumas escolas têm encaminhado crianças com diagnósticos psíquicos graves, sem que seus contextos tivessem sido analisados. “Faremos uma reflexão sobre como lidar com essas crianças que chegam com outra língua e cultura e, às vezes, encontram profissionais que desvalorizam o seu lugar de origem”, completa a professora.

50 anos depois, Brasil ainda pode ser lido sob as lentes de Glauber

Redação/Jornal da USP

Cena do filme 'Terra em Transe': esquerda também não foi poupada na crítica política de Glauber Rocha.Um clássico do Cinema Novo, Terra em Transe completa 50 anos e é considerado a obra-prima do diretor brasileiro Glauber Rocha, que recebeu o prêmio de direção no Festival de Cannes e de melhor filme no Festival de Havana.

A obra do diretor ainda interessa ao público e estudiosos de diversos campos e esse foi um dos motivos que levou Joabe França Mendonça a discutir e “a deslindar o papel que o filme ocupou em nossa história, em aspectos tanto políticos como estéticos e técnicos”, sempre sob uma perspectiva histórica. O artigo da revista Humanidades em Diálogo mostra a história do Brasil como metáfora apresentada no filme.

Com o golpe militar de 1964 e os consequentes conflitos sociais, políticos e econômicos, Glauber e outros artistas se ressentiram da esperada revolução na sociedade, apostando na conscientização “dos oprimidos”. Na época da censura, Terra em Transe acabou motivando a mudança do espectador de cinema, acostumado à linearidade dos filmes americanos, na medida em que possibilitou “múltiplas interpretações, uma fragmentação visual e narrativa”, deslocando o espectador e estimulando uma visão crítica que, muitas vezes, acabava gerando desconforto.

O cineasta Glauber Rocha: rompimento com os padrões estéticos.Isso porque, como afirma o autor, os filmes nacionais não condizem “a um mundo tecnicamente desenvolvido e moralmente ideal como se vê nos filmes de Hollywood”. Mendonça conta que, para Glauber, a arte, para ser moderna, precisa ser ética e revolucionária, oposta à dominação – isso é Cinema Novo, aquele que propõe desafios importantes como o tipo de linguagem a ser utilizado, não simplificada, altamente questionada por Glauber, pois, segundo ele, “o povo é complexo”.

Ambientado na fictícia República de Eldorado, o filme conta com uma gama de personagens que incorporam períodos ou personagens da história da República, na crítica ao populismo, à estratégia da esquerda, ao conservadorismo que chegou ao Brasil Colonial e aqui permaneceu “como apanágio da aristocracia” . O enredo mostra uma crítica objetiva: “a esquerda não tem um projeto claro e racional”.

“Câmera nervosa”
Glauber Rocha, em seu filme premiado, ficou famoso pela intrigante movimentação da câmera, a chamada “câmera nervosa”, que atua como personagem, retrato das turbulências desse triste período histórico brasileiro. Terra em Transe “é um rico documento não apenas para analisar a história e evolução do cinema brasileiro, mas também para compreender a vida política do país”, afirma Mendonça, salientando a reivindicação de Glauber por meio da voz do personagem Paulo: “Precisamos resistir, resistir! Eu preciso cantar”, apesar de, no último plano do filme, a luta armada prenunciar que “os planos da esquerda tinham falhado”.

O filme de Glauber é uma alegoria, um símbolo de resistência política e um rompimento com os padrões comerciais, éticos e estéticos normalmente associados ao cinema americano. Em uma analogia com o Brasil de hoje, observa-se que o “transe” mostrado no filme, é a pura realidade, o que faz de Glauber Rocha um diretor atual e pertinente, que, para fazer cinema, precisava apenas de “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”.

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