Lições de liderança e negociação no The Taste Brasil

Vivian Rio Stella (*)

Num reality show, participantes, formato de jogo e edição são alguns dos ingredientes para o sucesso.

No entanto, além de entreter, alguns programas podem fornecer lições sobre liderança e negociação, como no caso do The Taste Brasil, exibido pelo canal GNT às quintas-feiras, às 22h30. A primeira delas é a atuação dos renomados chefs Claude Troigros, André Mifano e Felipe Bronze como “mentores” de suas respectivas equipes.

Essa denominação usada no The Taste é bastante acertada se considerarmos que mentoria pressupõe desenvolver competências técnicas e emocionais a partir do exercício da liderança, para engajar, motivar e desenvolver pessoas. O mentor aconselha, orienta, porém jamais faz o trabalho no lugar de seu pupilo - o que fica evidente no programa. Dar autonomia e orientar apenas quando necessário são essenciais quando se trata de mentoria.

A segunda lição de liderança vem por conta do estilo de cada mentor. Claude é o mais afetuoso dos três; André Mifano, o mais provocador e direto; Felipe Bronze, o mais competidor e centralizador. Nenhum desses estilos pode ser considerado mais ou menos efetivo. Na realidade, as diferentes formas de conduzir os liderados e enfrentar os desafios do programa revelam que não há uma maneira única e adequada para o exercício da liderança e que a composição da equipe é crucial para a obtenção de resultados e para o bom clima.

Não é também apenas o estilo de liderar que difere os mentores. Cada um deles parece adotar critérios particulares para eleger o prato (no caso do The Taste, a “colher”) que irá representar a equipe na prova em grupo. André Mifano valoriza o cozinheiro que idealiza e executa a colher com autonomia e ousadia, sem que ele - o mentor - precise atuar mais de perto. Claude Troigros busca escolher a colher que alia técnica e sabor e que mais segue o estilo do avaliador da prova, o que revela empatia e pensamento estratégico.

Já Felipe Bronze preza pelo equilíbrio entre criatividade e sabor - e por isso sempre escolhe a colher mais surpreendente. As diferenças de critérios mostram o que cada um deles valoriza. E se os cozinheiros estiverem atentos, podem executar seus pratos procurando atender às expectativas dos mentores. É uma lição e tanto para líderes e liderados.

Outro importante aprendizado, voltado à negociação, ocorre nos momentos em que a mentoria do The Taste precisa chegar a um consenso sobre a pior colher, o que acarretará na eliminação de um competidor. Como, nesse momento crucial, eles já sabem quem são os autores das colheres, há um misto de interesses: o mentor não quer perder um cozinheiro de sua equipe, mas precisa eliminar aquele que fez a pior apresentação, em beneficio do reality show.

Na atual temporada, Felipe Bronze já divergiu de Claude e André sobre o peso da criatividade e da execução do prato, algo que norteou as discussões em dois programas. Em outro episódio, por ter perdido dois integrantes de sua equipe em duas semanas, Felipe tentou salvar o terceiro integrante na berlinda ao argumentar que o histórico do participante e as chances de crescimento dele deveriam ser considerados. Ter uma visão retrospectiva e prospectiva é útil para construir argumentos e negociar.

Já Claude, depois de ter se dedicado a orientar um de seus cozinheiros, sentiu-se frustrado ao vê-lo em maus lençóis pela quarta semana consecutiva. Decidiu, então, junto com os outros dois mentores, que não havia mais o que ensinar a ele e o eliminou da competição. Decisões delicadas como essa fazem parte do cotidiano de todos os líderes e é preciso encontrar maneiras de tomá-las, negociando com os demais líderes o que é melhor para o resultado da empresa e não apenas para si mesmo, como ensina o The Taste.

Há inúmeros aprendizados em realities como o The Taste Brasil. Basta estar com a atenção apurada, traçar paralelos com o cotidiano nas empresas e refletir sobre como pode se atuar de forma mais adequada, respeitando o seu estilo e decidindo pelo melhor - tanto para a equipe como para o seu negócio.

(*) - Doutora em Linguística pela Unicamp, pesquisadora de Pós-Doutorado no grupo Atelier da PUC-SP, é consultora e diretora da empresa de treinamento executivo VRS Cursos (www.vrscursos.com.br).