De carreirinha
Sandra Falcone na contra-mão

Era um menino comprido e quieto, com os joelhos sempre lascados. Moravam na mesma viela.

Ela gostava do jeito dele desengonçado de jogar "Betsi". Deixou de odiar os seus próprios óculos em razão dos óculos de tartaruga dele, horríveis! Até do seu estrabismo deixou de ter vergonha. Ele era, literalmente , vesgo, com ou sem óculos, o olho direito sempre olhando o esquerdo. Ela não! De óculos, seu olhos ficavam certinhos.

Com ele aprendera a o significado de "carreirinha".

A casa dela era rodeada por uma espécie de jardim silvestre. Ele passava metade do seu tempo lá a olhar as formigas, as suas formigas - era o seu formigueiro de estimação.

Ter cachorro, mesmo um vira-lata, era um privilégio e esse, um sonho como tantos outros que a criança pobre aprende a ter, sem querer.

Ele ficava horas olhando as formigas e, vez por outra, quando percebia uma formiguinha carregando uma folha com dificuldade, com delicadeza pegava a folhinha e a colocava na porta do formigueiro. Era estranho o seu riso nessas ocasiões. Um riso curto. Ria rápido, como se a alegria tivesse hora certa, que viesse, mas que fosse logo.

Ela não entendia muito direito aquele amor, aquela dedicação, aquele cuidado. Mas respeitava.

Uma tarde perguntou:

- Que tanto olha o formigueiro?

- Eu gosto, só isso.

Respondeu sem olhar, de pronto, e continuou de cócoras.

- Porquê você gosta tanto de formigas?

- Porque fui gostando, de carreirinha. Vivem quinem a gente, de carreirinha. Trabalham, correm daqui e dali, e chuva vem...

- Mas a chuva mata todas.

- Mata, mas não tudo. Sobra um pouco. Um dia achei que o formigueiro tinha sumido na enchente. Quando secou. vi uma formiguinha quase afogada. Fiquei olhando ela um tempão. Tava fraquinha mesmo. Depois, foi andando, foi ficando mais fortinha. Achou uma folhinha, foi carregando, indo, de carreirinha. Uns dias depois já tinha de novo o meu formigueiro.

Passou a estar com ele e com as formigas e a vigiar o céu na busca de nuvens de chuva. Chuva adquiriu um significado diferente para ela. Não era mais só o medo da enchente que arrasava tudo, aquele terror correndo atrás das roupas, dos móveis, das suas bonecas boiando na água _ tinha uma responsabilidade maior: o formigueiro.

Uma camaradagem silenciosa nasceu. Não havia muita conversa. Apenas a presença, o barulho da corrente do portão sendo aberto, os dois de cócoras olhando o formigueiro, a corrida com sacos plásticos na ameaça da chuva, os óculos embaçados e as formigas, sempre de carreirinha, umas atrás das outras, determinadas, na chuva ou no sol.

Quando mudou da viela e de vida, lá estava ele, no jardim dela, como sempre. Naquele dia o seu joelho parecia mais lascado, suas pernas mais compridas, seus olhos mais vesgos e seus óculos mais horríveis. Ela sentia uma coisa estranha, uma vontade de brigar com ele, de dizer desaforos, de cuspir no formigueiro, de manda-lo logo embora.

De repente, perguntou:

- E agora, suas formigas? Será que vão deixar você cuidar delas? Nem sei quem vai morar aqui...

- Vou dar um jeito.

- Mas o jardim não é mais meu! Não dá pra você fazer a mudança do formigueiro?

- Pra onde? Não tenho jardim... nem quintal...

- Como vai fazer?

- Não sei, vou pensar, de carreirinha.

- Mas as formigas nem sabem que você gosta delas...

- Não faz mal. Eu sei que gosto.

E sorriu de, de novo, naquele jeito de sorrir, curto. Um instante de sorriso com o tempo da eternidade. Sorriu todos os sorrisos, de uma vez só.

Nunca mais teve noticias do seu amigo formigueiro.

Demorou anos, em carreirinha, para compreender o menino de sorriso curto, que tinha um formigueiro de estimação num jardim, ainda que o jardim não fosse seu, e que sorria todos os sorrisos de uma só vez, ainda que a alegria não tivesse muito tempo e a dor viesse, de "carreirinha".

...........................

Foi até à janela. Respirou fundo. O céu, ameaçador, prometia. Sorriu:

- A chuva ameaça chegar, de carreirinha. Onde coloquei meus óculos?


Sandra Falcone

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